Zanskar. O refúgio tibetano intocado.

Desde que as tropas chinesas invadiram o Tibete em 1950, a cultura tibetana foi fortemente reprimida e pouco a pouco vem se tornando esquecida, chegando à beira da extinção. Entretanto, existe um último refúgio – escondido na fronteira da Índia com o Paquistão, incrustado nos Himalaias –, que ainda guarda heroicamente os conhecimentos deste povo e suas tradições intactas. Como integrante de uma expedição médica voluntária, designada para atuar no hospital construído pelo Dalai Lama, pude conhecer de perto este santuário e me entregar de corpo e alma – principalmente de alma – à beleza desse lugar, seus segredos e seu legado religioso-cultural.

Em meio a um trânsito infernal de São Paulo, atendo ao telefone. Uma frase ininterrupta sai do viva-voz, num misto de excitação e ansiedade:  “–Sócio!!! Vamos para Índia conhecer o Dalai Lama e levar voluntários pra trabalhar no hospital que ele construiu na Caxemira?”. A pergunta soaria estranha, não fosse pela interlocutora: Karina Oliani, minha parceira de projetos, tem sempre uma forma peculiar de fazer uma “grande entrada”.

Karina é apresentadora e produtora de TV e uma esportista multi-talentosa. Como escaladora foi a única sul-americana a ter conquistado o cume do Everest pelas duas faces (face sul pelo Nepal em 2013 e face norte pelo Tibete em abril de 2017). Ela é médica de formação e conseguiu aliar sua paixão por aventuras com a medicina quando se especializou em Wilderness Medicine (Medicina de Resgate em Áreas Remotas), depois de uma temporada de três anos nos EUA.

Nossa parceria começou logo após o terremoto que destruiu grande parte do Nepal e da Índia, em abril de 2015. Nos unimos em torno de uma ideia simples: publicar um livro de fotos, cuja renda foi 100% revertida para a construção de uma escola para as crianças vítimas da tragédia, no Vale de Patle, no Nepal.

Essa ação despretensiosa teve uma repercussão muito maior do que esperávamos. Em pouco tempo, o projeto ganhou novas dimensões, crescendo em notoriedade, número de voluntários e patrocinadores. O livro Dharma saiu literalmente do papel, está hoje já na sua segunda edição e acabou virando um instituto (Instituto Dharma), realizando ações humanitárias no Brasil e no mundo.

Ainda ofegante ao telefone, Karina contou que tinha sido contactada por dois cinegrafistas americanos, Katie e Ryan McPherson. Um casal no mais autêntico estilo outdoor californiano, que tinha um audacioso projeto em conjunto com uma ONG americana: a produção de um documentário que seria filmado em três anos, mostrando o trabalho de um grupo de médicos voluntários atendendo no hospital construído pelo Dalai Lama, na região remota de Zanskar, no norte da Índia.

Engasguei. “–Oi?”

Aquilo era tudo muito surreal. Mas era verdade.

Depois de saberem do nosso instituto, não queriam só a Karina como protagonista da história, atuando como médica e apresentadora, mas um time brasileiro de médicos voluntários que pudesse também trabalhar, em parceria com os americanos. Não demorou muito para percebermos que o inesperado se apresentava mais uma vez em forma de oportunidade. A possibilidade de mais uma expedição médica se desenhava para o nosso Instituto Dharma.

Terminamos a ligação e fiquei sem reação.

Respirei fundo. Eu sabia do nosso cronograma complicado de viagens para aquele ano. Eu sabia que para aceitar esse convite, teria que abdicar de mais tempo com a minha família, – e entre uma expedição e outra –, chegaria do Nepal e embarcaria para Ásia novamente, em menos de 1 mês.

Mas não é todo dia que se recebe um convite para trabalhar com o Dalai Lama. Pensei: “Dizer não à uma experiência dessas, é dizer não à vida e às oportunidades que ela apresenta. Isso não se faz…”.

Desde que nos lançamos nessa empreitada dos trabalhos solidários, existe uma lição recorrente que nos é ensinada sempre. Lição que finalmente, – parece – começamos a aprender e exercitar: simplesmente aceitar as coisas tal qual elas se apresentam. Sem questionamentos, sem buscar maiores explicações e porquês. E foi assim, com um grande sorriso no rosto e com as pernas bambas, que mais uma vez, abraçamos o inesperado rumo à Índia.

Tão longe, tão perto.

O conceito de “lugar remoto” deixa de ser algo subjetivo e se torna bem palpável, quando você leva cinco dias para chegar a um destino. Aos poucos, os celulares deixam de funcionar, a eletricidade depende de células solares e geradores à diesel, e o Brasil, vira um país onde ninguém tem a mínima ideia de onde fica.

Minha parada final era a pequena vila de Padum, a capital administrativa de Zanskar, região de Ladakh no estado de Jammu e Caxemira, extremo norte da Índia. Situado entre o Paquistão e o Tibete, o local conta com pouco mais de mil habitantes e engloba uma dezena de vilas ao seu redor. É a mais pura definição de “lugar no meio do nada”. Na verdade, alguns mapas chegam a indicar junto a Padum o termo “fim do caminho”.

Apesar de ficar na Índia, o vilarejo está mais próximo à Islamabad (capital do Paquistão, a apenas 700km), do que da capital indiana (Nova Delhi, a 800km). A vila é composta basicamente de uma única rua principal empoeirada que pode ser percorrida em 10 minutos (apelidada carinhosamente pelo nosso grupo de 5ª Avenida), e que abriga o comercio local com lojas de mantimentos, padarias, cafés com internet incrivelmente lenta (sim, acredite, internet!), algumas pousadas (as guest houses), uns poucos restaurantes e bares.

O que torna este lugar tão intocado não é só sua localização remota, mas seu difícil acesso: a região fica isolada do mundo nove meses por ano, durante todo inverno. De setembro a maio, basicamente ninguém entra e ninguém sai. A neve toma conta das estradas e das passagens altas nas montanhas e as únicas formas de acesso são de helicóptero ou a pé, num trekking com temperaturas congelantes, por mais de 100km (o chamado Chadar Trek, é um roteiro de caminhada famoso entre locais e estrangeiros. A trilha segue sobre o leito congelado do Rio Zanskar e inclui noites de abrigo em cavernas esculpidas nos paredões de rochas pelo caminho).

Chegar a Padum, por si só já é um desafio: de São Paulo à Doha, depois Nova Delhi, de onde se pega um vôo até Leh. A partir daí, são apenas 450 quilômetros em veículos 4×4, e que se transformam – com sorte – em dois dias de estradas esburacadas e perigosas sem acostamento, entre asfalto e terra, de caminhões na contramão e de travessias de rios formados pelo degelo dos glaciares. De pneus raspando pedras soltas que beiram precipícios a mais de 4.400 metros de altitude, no limite extremo de desfiladeiros de onde não se enxerga o fim.

Inclua ainda nesta rota: deslizamentos corriqueiros de barreiras bloqueando a estrada e alguns carros parados pelo caminho, com seus eixos quebrados.

Pronto, esse é o passeio de cinco dias para se chegar até Zanskar.

Mas não me entenda mal. Minha intenção aqui não é desencorajar o viajante incauto. Muito pelo contrário. Quero é ressaltar o quanto vale a pena encarar esta aventura para conhecer este paraíso único! Reforçar o quanto é válido cruzar toda essa distância e passar por cada um desses desafios, só para ter a chance de botar os olhos nessa jóia escondida nos Himalaias – um Shangri-la ainda vivo. Sem dúvida, um dos lugares mais lindos e mágicos que eu já tive a chance de conhecer, e com o povo mais hospitaleiro que eu já tive a chance de encontrar em minhas poucas andanças pelo mundo.

Coincidência ou providência?

A princípio, nada poderia ser mais paradoxo do que a localização de Zanskar: um reduto budista de paz, que prega o bem, a compaixão e a não-violência, só que localizado bem no coração na região de Jammu e Caxemira – área militarizada e em conflito desde o fim da colonização britânica em 1947. Na época da independência dos ingleses, o território foi dividido em dois estados distintos: a Índia (maioria hindu) e o Paquistão (maioria muçulmana). A Caxemira – faixa limítrofe entre os dois novos países – acabou se transformando, desde então, em alvo de constante disputa. Em meio a trocas de territórios, guerras, ataques terroristas de grupos separatistas e até conflitos com a China, a região acabou virando uma boa desculpa para uma corrida armamentista e a militarização das fronteiras no final dos anos 80 – resultando em demonstrações de poderio bélico de ambos os lados, inclusive com a realização de testes com armas nucleares.

Mas analisando do ponto de vista espiritual, o êxodo dos refugiados tibetanos budistas para essa localidade faz todo sentido: afinal, é ali que um sentimento maior de compreensão e entendimento se faz necessário. O próprio Gandhi já dizia: “Quando oramos pela paz devemos esperar pela guerra, pois são em tempos de guerra que podemos exercitar a paz”.

A verdade é que passados quase 20 anos desde o último incidente real de combate na região, a impressão que se tem ao passar pelas inúmeras bases militares pelo caminho é de um grande “faz de contas” estatal: acampamentos precários, equipamentos encostados nos pátios, veículos de guerra sucateados e armas obsoletas, dão o tom decadente de uma guerra que parece já não ser levada tão a sério. Mas que movimenta parte da economia e gera muitos empregos. E apesar da enorme quantidade de caminhões com soldados de um lado para outro, a impressão que se tem é que no caso de uma guerra eminente, eles não teriam nem munição, nem preparo, para pouco mais que alguns dias de combate. A isso tudo, mistura-se a incansável e tão venerada burocracia indiana institucionalizada: um sem-fim de postos de controle (check-points) em que militares misturam uniformes com roupas civis e nos recebem como se estivessem em casa. Fazem algum tipo de controle de passaportes, sem nenhum rigor ou metodologia aparente. Também sem pressa. Na maioria das vezes com sorriso. Outras até com chá e bolachas. Às vezes até deitados em suas camas improvisadas, dentro de um saco de dormir – caso a madrugada esteja muito fria.

Trabalho a 25 mãos.

A americana Valerie Hellermann, 66, têm um longo histórico de trabalho voluntário. Atuou em campos de refugiados durante muitos anos. Em 2014, já atuava há alguns anos com a comunidade tibetana na Índia através do Tibetan Children’s Education Foundation, quando foi convidada pelo Lama Geshe Yonten, para iniciar um projeto de atendimento médico em Zanskar. O próprio Dalai Lama estava na região e visitou os voluntários na ocasião, onde presenciou a importância do trabalho realizado para a melhoria da qualidade de vida da comunidade local. Uma lugar tão remoto e que fica isolado tanto tempo por ano, precisava urgentemente de um centro de saúde que pudesse oferecer amparo à essa população desassistida. E foi durante um encontro com Valerie e sua equipe, que Sua Santidade fez um pedido enfático e irrecusável ao grupo: “Vocês têm que dar continuidade a este trabalho” – disse ele.

Dois anos depois, em junho de 2016, era inaugurado o Sowa Rigpa (Dalai Lama Hospital). Construído com recursos do The Dalai Lama Fund, o hospital foi criado para tratar pacientes, tanto com medicina alopática ocidental, quanto com a medicina tradicional tibetana – através de atendimentos em conjunto com amchis (curandeiros locais que praticam a antiga medicina tradicional tibetana, com tratamentos que passam, principalmente, por infusões de ervas, entre outros métodos).

Hoje, Valerie é a coordenadora da Hands On Global, ONG dedicada única e exclusivamente às atividades médicas de voluntariado ligadas ao hospital de Zanskar. Gerenciar esse programa é sua vida.

E foi com essa mesma dedicação e empenho, que Valerie recebeu nosso grupo. Ao todo éramos 11 voluntários brasileiros que se somaram a uma equipe de 14 americanos. Karina coordenou a parte médica do nosso time, que contava com duas médicas de emergência, uma ginecologista, uma pediatra, duas fisioterapeutas, um cardiologista, um psicólogo, além de um cinegrafista e um fotógrafo (eu!). Em cinco dias de atendimento, foram atendidos mais de 700 pacientes, dentre estes alguns casos de emergência, onde ter uma equipe especializada presente, literalmente salvou vidas.

Infelizmente, o hospital ainda só está operando nos meses de verão, enquanto as estradas estão abertas e a chegada dos médicos é possível por meio terrestre. Como essa região é toda militarizada, vôos de helicópteros são restritos aos militares – o que na maioria das vezes impede que atendimentos e resgates de urgência sejam realizados. Não existe uma regra clara para quais casos os militares prestam auxílio de remoção aérea. Às vezes eles ajudam no socorro, mas na maioria das vezes não. Embora exista um heliporto logo na entrada de Padum, ele não atende vôos privados. Enquanto algumas poucas pessoas têm a sorte de serem atendidas e transportadas pelo exército até o hospital em Leh (o mais próximo da região), outras não têm a mesma chance e são obrigadas a enfrentarem até 22 horas de estrada esburacada e precária, na tentativa de um atendimento – isso se o caminho estiver aberto. A maioria dos pacientes em situação grave, infelizmente, não consegue chegar para serem tratados a tempo.

Nos poucos dias que ficamos em Zanskar, pudemos atender em vilas tão remotas que pareciam esquecidas naquele canto de mundo. Lugares saídos de um livro de relatos de algum explorador famoso, onde a sensação é de que o tempo parou e as pessoas ainda vivem como no começo dos tempos: trabalhando na lavoura, cuidando da criação e se preparando para quando o inverno chegar. Vivendo de forma extremamente simples, mas também muito digna. Vivendo sobretudo com muita fé e uma religiosidade transbordante.

Rios de água acinzentada, formados pelo degelo, correm abrindo caminho e refletindo o sol por toda a paisagem. Mosteiros nos sopés das montanhas, por cinco ou seis séculos, são testemunhas da vida daquele povo resiliente e gentil.

As montanhas nevadas majestosas dos Himalaias emolduram tudo, dando a grandeza devida àquele espetáculo arrebatador, em plano céu aberto.

Budismo engajado.

Quando perguntam minha religião, costumo responder (ou me defender), me auto-intitulando um “livre pensador”. Me parece mais elegante  – e mais sincero de minha parte – não assumir nenhuma postura definitiva com nenhum lado. Afinal, não sigo sistematicamente nenhum estudo ou ritual. Além disso, consigo identificar pontos positivos nos pensamentos do catolicismo, do espiritismo, do islamismo e em tantas outras religiões. Mas encontro também, pontos de disparidade – talvez por falta de conhecimento ou simples incapacidade de compreensão – em cada uma delas. Considero o budismo a religião mais inclusiva de todas, e talvez por isso, seja o pensamento com a qual eu mais me identifique. O “caminho do meio” dos budistas, me parece um curso sensato, de respeito e de aceitação da pluralidade de outras formas de pensar – o que entendo, deveria ser a base de construção de qualquer crença religiosa: a percepção de que não há verdade absoluta, mas várias verdades que se intersecionam, se complementam e confluem, como diferentes rios, para o mesmo mar.

Talvez esse seja o segredo da beleza e da alegria do povo de Zanskar. Pessoas humildes, que vivem com muito pouco, mas que carregam no olhar a serenidade e a sabedoria do respeito e da compaixão ao próximo.

Fechamos nossa expedição numa audiência com Sua Santidade, o Dalai Lama, que nos recebeu em sua residência em Leh. Ele agradeceu todo o trabalho voluntário e falou da importância do intercâmbio entre a medicina moderna e a medicina tradicional tibetana. Falou também sobre a importância de se manter as tradições tibetanas vivas, e sobre como o budismo pode ajudar a curar uma série de patologias da sociedade moderna, principalmente as psíquicas.

Ao nos despedirmos, ele disse: “–Obrigado e até breve”. Karina retrucou: “–Até o ano que vem!”. Ele olhou e sem dizer nada, sorriu. Em junho de 2018 estaremos de volta a Zanskar. Mais do que ajudar, mais do que trabalhar como voluntários ou médicos, voltaremos lá como alunos. Voltaremos lá para aprender.

By | 2018-01-22T00:40:59+00:00 janeiro 17th, 2018|Categories: Artigos|0 Comments

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