Vistas secas

No cenário árido e remoto do sertão do Piauí, uma expedição médica solidária, leva auxílio humanitário e esperança a pessoas esquecidas pelo Estado, largadas à própria sorte em meio à uma das piores secas da história da região.

Ali, bem no meio do nada, a 100 km/h, a camionete 4×4 cortava a estrada sinuosa esburacada de “areião”, pulando e derrapando, numa corrida contra o tempo pela vida. “Acelera que o pulso está ficando fraco! Estou perdendo o paciente!”, gritou a médica. Atrás do volante, Gustavo Arruda não era exatamente o que se pode chamar de motorista de resgate. Com apenas 19 anos e uma carteira de habilitação ainda cheirando a tinta fresca, participava da expedição como auxiliar de oftalmologia e técnico na montagem de óculos. Mas naquele instante, quando uma emergência inesperada se apresentou – quem sabe se por sorte ou destino –, ele estava motorista. E se mostrou ser dos bons. “Na hora, lembrei do que a Karina (Oliani) disse no primeiro dia da expedição. De que os atendimentos seriam em áreas remotas e que aos poucos, todos nós, médicos ou não, deveríamos estar prontos para colocar em prática os fundamentos básicos da Wilderness Medicine: improvise, adapt, overcome. (improvise, adapte, supere). E foi o que eu fiz naquele momento”, – conta Gustavo.

A equipe médica que realizava visitas domiciliares naquele dia foi pega de surpresa e não estava preparada para lidar com emergências como aquela. Seu Pedro, morador da comunidade de Tanque de Cima, município de Acauã, Piauí, foi encontrado caído em um celeiro, inconsciente e convulsionando. “Num primeiro momento eu pensei que ele já estivesse morto. Seu corpo estava coberto por formigas, moscas, o que significava que fazia já algum tempo que ele estava ali. Mas foi quando vi que ele ainda tinha pulso. Ele estava vivo!”, conta a Dra. Talita Cabrera, a primeira a chegar ao local.

Um rápido diagnóstico sugeria que o paciente diabético, numa crise de hipoglicemia severa, se automedicou com insulina sem antes se alimentar ou medir seus índices glicêmicos. O resultado foi um coma hipoglicêmico. “Era uma questão de horas, talvez minutos, até que ele tivesse uma parada cardiorrespiratória e entrasse em óbito. Sua única chance, era chegar num hospital.”, explicou a médica.

A melhor opção foi então cruzar a divisa do estado por estradas de terra, num rali insano de eternos 30 minutos, até o Pronto Socorro mais próximo, no município de Afrânio, em Pernambuco – onde então, só depois de 15 minutos de burocracia sem sentido e muita insistência sobre a gravidade do caso por parte dos socorristas – o paciente finalmente deu entrada na emergência e foi atendido. “Por sorte, Seu Pedro sobreviveu. Mas casos como este, não deixam de acontecer quando a gente não está lá”, disse a médica, revoltada com a falta de preparo básico por parte dos centros de saúde da região. Dia após dia, semana após semana, essas ocorrências acabam virando casos corriqueiros. E depois, simples estatística. Esse foi apenas um dos casos em que a presença de nossa equipe, de fato, fez a diferença. A gente não sabia, mas outros casos ainda estavam por acontecer.

Cenário da Serra do Inácio, sertão do Piauí.

Era pouco mais de meia-noite quando cruzávamos o sertão do Piauí sentados numa caçamba empoeirada, sob um céu de estrelas descomunal. Ficamos um bom tempo em silêncio, só admirando aquela vastidão e sentindo o vento fresco da noite no rosto. Agradecendo o alívio dos 38ºC que pegamos durante o dia e que agora deixávamos para trás, lá em Petrolina. Vendo o redemoinho de terra fina que levantava no rastro da camionete, feito talco, só podíamos tentar imaginar o cenário desértico que o escuro da noite escondia por detrás daquelas cercas pintadas de pó. Este era o último trecho de uma viagem que já levava cinco horas, e que nos faria seguir ainda por mais uma hora em estrada de chão batido, até chegarmos ao nosso destino final: a Serra do Inácio.

“Quando que a gente poderia imaginar que nosso livro iria nos trazer até aqui, hein, sócio?!”, disse Karina, abrindo um largo sorriso. A obra a que ela se referia é o Dharma. Um livro de fotos que publicamos em co-autoria em 2015, e que levantou fundos para construção de uma escola para as crianças vítimas do terremoto no Vale de Patle, no Nepal. Essa parceria me rendeu – além de uma grande amiga – o apelido de “sócio”, ao qual também retribuo desde então, com um recíproco “sócia”.
O projeto deu mais certo do que esperávamos: o que era para ser só uma publicação para angariar fundos numa ação pontual, cresceu. Não só em arrecadação, mas em visibilidade, atraindo novos parceiros e patrocinadores.
Vimos que a coisa poderia ir além. Que poderíamos estender nossas ações, ajudando a financiar iniciativas em outras localidades, no Brasil e no mundo. Vislumbramos – a “sócia”e eu – um horizonte muito maior para as possibilidades do nosso Dharma.

A Karina Oliani aventureira, a maioria das pessoas já conhece da TV. Lá, ela está sempre arrumando boas encrencas, seja voando amarrada na asa de um avião, seja mergulhando lado a lado com uma sucuri de 8 metros. Ela também é conhecida pelas suas conquistas no esporte: bi-campeã brasileira de wakeboard, campeã de snowboard, recordista de apnéia, e a brasileira mais jovem a conquistar o cume do Everest, com apenas 33 anos. Mas curiosamente, talvez o lado menos conhecido da Karina, seja o que dê a ela um dos maiores sentimentos de realização, tanto profissional quanto pessoal: o seu lado de “Dra. Karina”. Ela é a primeira médica brasileira com especialização nos EUA em Wilderness Medicine (Medicina de Emergência em Áreas Remotas), com pós-graduação em Medicina de Emergência e Urgência pelo Hospital Albert Einstein, de São Paulo. Já foi médica voluntária em países como Ruanda, Etiópia, Uganda e Nepal, além de localidades remotas na Amazônia e no nordeste. Entre mergulhos e conquistas de cumes, entre pilotar helicópteros e sobreviver na selva, a verdade é que tudo vira um mero passatempo para ela, quando comparado com o desafio maior de salvar uma vida e de ajudar pessoas. A adrenalina até pode ser a mesma, mas seus olhos ganham um outro brilho: parecem mais compenetrados, focados. Karina aceita toda a responsabilidade que lhe cabe, com uma seriedade sem tamanho nem limites. Lida com firmeza (sim, ela pode dar esporros homéricos, mas sem nunca perder a compostura), trata com respeito, cuida com orgulho, busca civilidade e o resgate do senso de cidadania, em cada paciente que atende.

Certa vez, durante um almoço, Karina foi apresentada a Mariana Serra. Moça de sorriso fácil e extrovertida, Mari contou como idealizou e se tornou cofundadora da Volunteer Vacations. A “VV”, como é conhecida, é hoje uma das principais empresas de turismo solidário do país. Leva seus clientes para “férias” de trabalho voluntário em mais de 15 países, entre África, Ásia e Américas, além de inúmeros projetos sociais em todo Brasil. Por seu trabalho notável ligado ao empreendedorismo social, entrou na lista da Revista Forbes em 2016, como “uma das jovens mais promissoras do Brasil abaixo dos 30 anos”. A afinidade entre as duas foi imediata. Desde então, vinha rolando uma “conspiração do bem” para que algum projeto médico acontecesse, coordenado por elas. Finalmente agora, depois de dois anos de tentativas e espera, o universo tinha chamado o número de senha que elas tinham em mãos. Foi assim que o Dharma Project embarcou na primeira expedição médica no sertão do Piauí, em parceria com a Volunteer Vacations, colaborando com parte dos recursos necessários. Mas é claro, como qualquer projeto com o qual nos envolvemos, nada seria tão fácil quanto imaginávamos…

Mariana Serra e Kariana Oliani, durante expedição no Piauí.

O objetivo da expedição era o de levar atendimento médico a localidades remotas e que fossem extremamente carentes. Lugares em que o serviço público de saúde quase nunca chega, e quando acontece, é muito precário. A ideia também incluía uma série de palestras de prevenção e tratamento, sobre uma variedade de enfermidades. A equipe era formada por 23 integrantes, entre médicos e pessoal de apoio técnico e logístico. Ao todo, 10 profissionais da saúde, atendendo nas seguintes especialidades: clínica geral, ginecologia, pediatria, infectologia, odontologia, cirurgia, psicologia, fisioterapia e oftalmologia (com avaliação, confecção e entrega dos óculos na hora). Para registrar tudo, um fotógrafo (eu) e 2 cinegrafistas para a produção de um documentário – o Henrique Mourão (documentarista de programas da BBC, Discovery e Canal Off) e a Beta Recoder (ex-corredora de aventura, hoje sócia da Boutique de Imagens). Mari já tinha trabalhado com comunidades do sertão do Piauí que viviam em condições extremas e sugeriu justamente essa região como foco da nossa ação.

Karina realizou uma viagem precursora um mês antes da expedição, visitando esses lugares, para decidir quais localidades seriam atendidas, e também para determinar os melhores locais para a montagem dos “hospitais” provisórios: conseguiu parcerias com secretarias municipais que cederam espaços de postos de saúde desativados, escolas públicas e “garantiram” o fornecimento os medicamentos. Mari por sua vez, fechou parcerias com ONGs que mantém bases na região há anos (como a Iris Global Piauí, Instituto Água Viva e Boutique dos Sonhos), e que por estarem in loco, conhecem de perto cada uma das comunidades e seus respectivos líderes. Isso foi essencial no mapeamento das reais necessidades de cada localidade, além de poderem colaborar na operacionalização do trabalho logístico (eles conheciam muito bem a região e todas as estradas de acesso, quase escondidas – que não estão no Google Maps, Waze, nem mesmo constam na carta rodoviária oficial do Estado do Piauí). Isso sem mencionar o fato de que seriam importantes interlocutores num primeiro contato, na apresentação entre médicos e população. Nesses lugares, chegar acompanhado de um rosto amigo, faz toda a diferença entre ganhar confiança ou uma porta na cara.

Karina convidou também Victor Bigoli, biomédico e professor da Universidade Metodista de São Paulo, mestre em Psicologia da Saúde Comunitária, para coordenar o projeto juntamente com ela e com a Mari. Victor é diretor do Projeto Canudos, na Bahia, e já realizou projetos médicos em todos os estados do Brasil, todos os países da América do Sul e em grande parte da América Central. Karina já tinha trabalhado com ele, ali mesmo no Piauí, num projeto em 2006. Ela sabia que Victor era “o cara” para integrar o time e garantir que tudo acontecesse de maneira mais eficiente.

Estava tudo pronto. Agora, só uma questão de dias até que o estopim fosse aceso.

Equipe do Dharma durante atendimento do sertão do Piauí, out/2016.

“Acabou! Não vai mais ter expedição!”, disse Karina. “…depois de tanto trabalho, de tanto esforço pra organizar tudo…”, ela não podia acreditar.

Dias antes do início da missão, um balde de água fria: nosso parceiro da ONG em Acauã, Wellington Peraro, nos ligou avisando que as secretarias municipais de saúde não iriam mais fornecer os medicamentos como haviam se comprometido. E sem esses medicamentos, nenhuma missão médica fazia sentido. Tudo acabava ali.
Mas, mais uma vez, era hora de se superar. Karina bateu o pé e disse: “A gente vai de qualquer jeito! Vamos fazer isso dar certo!”. Começou então uma peregrinação com possíveis patrocinadores para fazer a coisa acontecer. Agora era
questão de honra viabilizar a ação. Afinal de contas, profissionais já haviam se programado – trocado plantões, programado férias –, as populações locais aguardavam ansiosamente a chegada dos médicos, algo que foi amplamente divulgado nas localidades. E foi assim, no peito e na raça – e com aquela ajudazinha básica do universo –, que aos 47 do segundo tempo, tudo aconteceu.

Caixas e mais com doações de remédios começavam a chegar e a tomar conta do espaço físico da produtora da Karina em São Paulo. Quando ela chegou e abriu a porta do escritório, quase não conseguiu entrar, tamanha a quantidade de material empilhado. “Anjos do bem”, compraram equipamentos que estavam faltando e doaram ao projeto. Contratos de patrocínio chegavam por e-mail e eram lidos pela Karina durante as escalas, à caminho do Piauí. Tudo o que poderia dar certo, e mais um pouco, aconteceu em menos de uma semana.
Costumo dizer que “o caminho entre a glória e o caos é uma linha tênue”.

Mais uma vez, a sorte se mostrou estar do nosso lado. Parece que quando nosso propósito é maior, de fato, não existem limites, nem obstáculos grandes o suficiente – nem estreitos o suficiente – que possam nos parar.
Finalmente tínhamos equipe, uma data, recursos e um mapa definido para a ação: seriam 9 dias de expedição (de 1 a 9 de novembro de 2016). Seriam atendidas, no município de Betânia do Piauí, as comunidades da Serra do Inácio
e Vila do Mel; no município de Paulistana, as comunidades de Batemaré, Rocinha e Maria Preta; na cidade de Acauã, além do atendimento por dois dias no próprio município, os Quilombos Angical, Escondido e Tanque de
Cima. Ainda, além da divisa do Estado, já em Pernambuco, o município de Santa Filomena. Toda essa área de cobertura fica numa região distante 500km da capital Teresina. Povoados e vilarejos quilombolas, pertencentes a
municípios que têm seus IDHs (Índice de Desenvolvimento Humano), entre os 100 piores do país (pra se ter uma ideia mais clara do que isso representa, é só considerarmos que existe um total aproximado de 5.600 municípios em
todo território nacional). Famílias – em sua maioria muito numerosas –, que vivem abaixo da linha da pobreza, com rendas totais que variam entre R$140 a R$240 por mês. Pessoas que tentam sobreviver e criar os filhos, com R$6
por dia.

 

Família da Serra do Inácio, Piauí.

 

Karina Oliani, durante atendimento médico domiciliar.

Isso tudo, sem mencionar o desafio climático da seca. A última vez que choveu na região, foi em fevereiro de 2016, então, por onde se olha só o que se vê é aridez e poeira. Muita poeira.

Neste estágio avançado da seca (mais de 10 meses sem chuva), população e animais, começam a dividir o pouco que resta dos últimos açudes. Isso resulta numa água contaminada, cheia de parasitas, mas que é a única saída para muita gente. As doenças se alastram. Os que têm o privilégio de ter uma casa de alvenaria, ganham uma cisterna da prefeitura, o que de certa forma, minimiza a falta d’água. Em algumas localidades a própria prefeitura distribui essa água em caminhões pipa. Quando isso não acontece, resta as famílias diminuírem ainda mais seu orçamento, destinando parte dele para a compra de água.

Casas de taipa, por não serem consideradas moradias “de fato”, não são beneficiadas nem com a construção de cisternas, nem com fornecimento de água.

A essas famílias a única saída é viver de lata na cabeça, dividindo espaço no açude com porcos, cabras e jumentos, para conseguir água para seu consumo próprio.

Nossa rotina era a mesma todos os dias: acordar por volta das 6h00 da manhã, carregar as picapes e pegar a estrada por 40 minutos – 1 hora, até o local de atendimento (onde na maioria das vezes, já tinha uma fila de pessoas  aguardando o atendimento). Lá, estudávamos a melhor configuração para montar os consultórios e começávamos a arrumação. Em menos de 1 hora, os médicos já estavam atendendo. Nossa farmacêutica, Fernanda Costenaro e sua assistente Pamella Knopf, montavam e desmontavam uma farmácia inteirinha, diariamente. Estamos falando em milhares de medicamentos sendo classificados e arrumados de maneira que, uma vez prescritos pelos médicos,
pudessem ser localizados e entregues aos pacientes em questão de segundos. E o que era melhor, gratuitamente.

As recepções e áreas de triagem, pareciam praças de alimentação de shopping em véspera de Natal. Era gente saindo por todo lado. E no meio daquela loucura, aos poucos a experiência dos médicos e da equipe de voluntários ia falando mais alto e tudo ia se acalmando. Já as 17h00, 18h00, os “hospitais” estavam desertos. Não dava para acreditar que era o mesmo local “insano” da manhã. Os médicos já tinham “zerado” os pacientes e todos tinham sido atendidos.

O melhor exemplo que quando existe seriedade, profissionalismo e determinação, as coisas acontecem. Por que nossos hospitais do SUS não funcionam dessa maneira? Sabendo que é possível fazer as coisas funcionarem como deveriam, fica no mínimo, essa indagação lá no fundo da cabeça. Mas a resposta, um tanto óbvia, nós também já sabemos.

O maior número de atendimentos foi da área da oftalmologia. Mais de 300 óculos foram prescritos, montados e entregues na hora pelo médico oftalmologista Siro Nozaki. Pessoas que tinham se esquecido como era “ver a vida em detalhes” e que puderam novamente ganhar esta perspectiva. E quanta mudança isso pode trazer para esses pacientes, a exemplo de Dona Josefa Joaquina: costureira de uma vida inteira das noivas do sertão, aos 64 anos teve que deixar a profissão porque já não dava mais conta de enxergar os pespontos, não conseguia alinhavar os brocados. Já de óculos novinho, e sorriso grande no rosto, olhava de perto o tecido da própria roupa e descrevia fascinada:
“Consigo ver a cor, a costura, os detalhes do pano…Vou poder costurar de novo! Vou voltar a vestir as noivas mais lindas desse Piauí”, comentou cheia de orgulho. Siro tem bastante experiência em trabalhos voluntários em áreas remotas. Ele integra há anos a equipe permanente dos Expedicionários da Saúde, grupo que atende populações indígenas e ribeirinhas na região Amazônica. “O exame de refração e a confecção dos óculos é algo relativamente simples, mas que contribui enormemente na reinserção dos indivíduos na sociedade, nas atividades laborais e no aprendizado escolar”, comenta.

Voltar a enxergar traz muito mais que dignidade a essas pessoas. Traz uma renovação da vontade de viver, à medida que se sentem incluídas e úteis.

Dr. Siro atendendo durante a expedição.

D. Josefa, feliz porque iria voltar a costurar.

Um dos maiores diferenciais da expedição foram os atendimentos domiciliares.

Enquanto a maioria da equipe médica ficava atendendo nos centros médicos montados, parte dos profissionais se revezava em visitas de campo, com as picapes 4×4 à disposição para este tipo de atendimento. Uma ação que sem dúvida, fez toda diferença para muitas pessoas: um grande número de pacientes com locomoção comprometida – por conta de alguma enfermidade –, ou moradores de áreas extremamente remotas, sem qualquer de acesso a transporte, puderam ser examinados e avaliados pelos médicos. Pessoas que talvez nunca teriam acesso a uma consulta, muito menos a remédios e tratamentos, não fosse pela nossa presença ali naquele momento, numa visita pessoal, de casa em casa.

A fisioterapeuta Marlise Carvalho, por exemplo, saia para os atendimentos só com uma mochila cheia de ataduras: “Era o único material disponível para mim. Simples, de fácil acesso e manuseio, consegui resolver muitos problemas só com isso. Numa das casas, encontramos uma senhora com sequela de dois AVCs, que não conseguia andar sem auxílio. Fiz um enfaixamento “em oito” no pé afetado e, procurando no próprio quintal, encontrei um pedaço de madeira naturalmente já desenhado para funcionar como uma bengala. Saímos de lá com os olhos marejados, comovidos ao vê-la caminhar sozinha, chorando em agradecimento e emoção”.

Outro problema grave no sertão, atualmente a maior causa de morte na região, é o suicídio. A pobreza extrema, aliada à falta de perspectiva e oportunidades, faz com que o suicídio seja hoje quase que uma epidemia no estado.

Um problema de saúde pública, que ocorre em todas as comunidades. Sabendo disso, Karina fez questão de incluir na equipe um especialista para poder tratar desta questão. Uma iniciativa de vanguarda neste tipo de ação, já que esta foi a primeira vez que um profissional da área da psicologia, integrou uma expedição médica. O Dr. Carlos Henrique Aragão, é especializado em prevenção do suicídio e em cuidado de pessoas enlutadas, e foi uma peça fundamental no trabalho de nossa equipe. Pode realizar dezenas de atendimentos, não só orientando os tratamentos em cada um dos casos, mas também lidando com suporte em questões mais específicas de sofrimento – emocional e psicológico, das comunidades atendidas. Até mesmo em apoio aos integrantes da equipe – já que as questões abordadas diariamente lidavam diretamente com o sofrimento humano na sua forma mais brutal, como fome e doenças graves, deixando toda equipe vulnerável a uma série de questões de abalos psicológicos. Também por ser de Teresina, Dr. Carlos consegue dar continuidade e suporte a alguns casos com maior proximidade. Desde que realizamos a expedição, ele mesmo já retornou pessoalmente ao local para dar sequencia ao tratamento de alguns pacientes mais graves.

“Andrei, sei que é difícil te dizer isso, mas sinto que o Juan desistiu…Ele simplesmente desistiu”. A frase entrou como uma lança no meu peito. Juan, a quem a nossa pediatra Karina Carneiro se referia, era um menino de apenas 6 anos. Não tinha como, na hora, não pensar na minha filha mais velha de 5 anos e traçar um paralelo com tudo aquilo. Ficar imaginando o que é que tinha levado aquele menino a chegar naquele ponto.

Juan deu entrada no nosso posto de atendimento na comunidade de Batemaré, depois de sofrer um desmaio. Levado pela irmã de 12 anos – que é quem cuida da família – carregando a irmã mais nova no colo, e a mãe, com graves problemas neurológicos à tiracolo. Era um caso de subnutrição e desidratação extremas. Juan pesava apenas 10 quilos. Não falava, não ria, não interagia. Não urinava fazia três dias. Negou um prato de comida que oferecemos para ele. Como a Dra. Karina tinha dito, parecia que o Juan tinha de fato, simplesmente desistido.

Depois de passar o dia numa terapia de reidratação oral, ele mostrou sinais de melhora. A equipe médica o levou então de carro até Paulistana, a mais de uma hora e meia de onde estávamos, e o encaminhou para a internação no hospital local.

Juan ficou no soro por mais de dois dias até urinar pela primeira vez, tamanho era o grau de sua desidratação. Dias depois, a equipe recebeu fotos no celular de um outro Juan: uma criança sorridente, mais corada e comendo um prato enorme de arroz, feijão e carne. Até hoje, a equipe vem acompanhando a evolução de Juan. E ao que perece, ele desistiu de desistir. Ele reagiu e resolveu lutar por sua vida. Não dá para ignorarmos o fato de que, se pela simples circunstância logística de não estarmos atendendo naquela comunidade, naquele dia, naquela hora, muito provavelmente Juan não teria tido uma chance. Ele não teria escolha e já não estaria mais aqui para continuar lutando, continuar tentando. Só por essa possibilidade que tivemos, só essa feliz coincidência do destino, de estar no lugar certo, na hora certa – e poder fazer a diferença para o pequeno Juan –, fez com que tudo valesse a pena: a expedição, o planejamento de meses, todo trabalho das 23 pessoas envolvidas, os mais de dois mil atendimentos que realizamos em 9 dias de expedição.

 

O desafio agora é fazer as sementes que plantamos, germinarem. Já demos o start para que o Dharma se transforme numa empresa do terceiro setor (uma fundação ou uma instituição). Desenvolvendo projetos que envolvam ajuda humanitária – na área de saúde e medicina, educação, obras de infra-estrutura e saneamento – em localidades necessitadas. Também a capacitação das pessoas das comunidades, possibilitando uma independência auto-sustentável, geradora de recursos e desenvolvimento. Preferencialmente regiões inóspitas que explorem o ambiente outdoor e a natureza. Mantendo nossa parceria de atuação com a Volunteer Vacations e outros parceiros. Continuando com a publicação dos livros de fotos dessas ações (em 2017 publicaremos o Dharma Sertões, com as fotos do Piauí), sempre com o lucro 100% revertido para os projetos, retro-alimentando as nossas ações, além da produção de documentários das expedições, para exibição em canais de TV e em festivais pelo mundo.

Já estamos preparando atividades de curto, médio e longo prazo para as comunidades do Piauí, com as próximas ações já programadas para fevereiro de 2017. Usando como células-base o estudo de localidades que deram certo, como o Quilombo de São Martins (comunidade quilombola auto-sustentável que trabalha com produção de mel, queijo de cabra, banco de sementes, irrigação por gotejamento e outras técnicas de produção e sustentabilidade), que podem garantir uma vida digna e um futuro promissor para muitas comunidades do sertão. Um povo sofrido, mas que apesar de tudo é alegre e feliz, e que tem muito a nos ensinar. Que abriu os nossos corações para além das paisagens áridas. Por fim, as vistas secas, acabaram por molhar os nossos olhos e inundaram nossas almas. O sertão, quem diria, virou um símbolo de esperança, de fé e sobretudo da certeza de tudo aquilo em que acreditamos: que só depende de nós, sermos a mudança que queremos ver no mundo.

 

By | 2018-01-22T13:19:41+00:00 julho 10th, 2017|Categories: Artigos|0 Comments

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